sexta-feira, 29 de novembro de 2013

"Olhai os carirus no canto"

Pelas ruas elas resistem. Nascem sem pedir licença, assim, num ato subversivo, radical. Ontem mesmo, no meio-fio, vi uma enorme, já florida, uma transagem. Mais um pouco e já encontro uma touceira de cariru-de-porco. Plantas da roça que marcam a memória da cidade e do concreto. Nem o asfalto nem a crescente poluição são capazes de eliminá-las. São como nossas lembranças, basta uma bocadinho de terra para que germinem e frutifiquem. Nos muros e cercas vicejam os melões-de-são-caetano, orelhas-de-cachorro e as trombetas. Nos terreiros molhados pela chuvas nascem santa-marias, picões, beldroegas, trapoerabas e fumos-bravos. Aqueles mais privilegiados dão a sorte de encontrar em seu quintal um pezinho de quitoco  - ô tempero bão! É a vida que insiste, que só é possível na desordem, fora da lei (do concreto). Outro dia, Dona Mariazinha, do Aglomerado da Serra, ao olhar as mamonas que tomam conta de lotes e becos, lembrava com carinho e saudade da vida na roça, do azeite usado para curar os "imbigos". Esse matagal que prolifera nessas brechas urbanas guarda também uma riqueza de vidas, memórias e saberes, todos a espreita, sementes de um novo dia que virá.

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