sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

No Reino de Deus, tem broa de fubá!

Para todos aquelas e aquelas que se deixam embriagar pela boniteza da vida, a morte nunca é a última palavra. Para grande parte das matrizes religiosas atuais, nossa vida presente é caminho para uma realidade maior, mais plena e eterna. A imanência e concretude do viver apontam para o grande Mistério. Como católico, que viveu a efervescência e paixão das comunidades eclesiais de base, essa grande utopia que buscamos se chama Reino de Deus.
Mas o que é esse tal Reino de Deus? Ele não tem nada que ver com aquele da Igreja Universal, ou com o ouro e poder do Vaticano. Não existem os escolhidos para entrar e não é possível comprar nossa entrada como se reservam mesas em restaurantes refinados. O Reino de Deus é o Reinado do Povo. É a concretização dos sonhos de homens e mulheres que lutam por uma nova ordem das coisas e que se apaixonam todos os dias pela vida que resiste. Esse Reino não é a intervenção autoritária de Deus na nossa história, mas é manifesto nos seus sinais na vida do povo. Não é uma realidade futura que serviria para simplesmente amenizar nossos sofrimentos e nos tornar resignados. É atual e concreto no viver de comunidades que se encontram para lutar por justiça e fazer acontecer no agora os sonhos do amanhã.
Nas rezas, nas novenas, no FSM, nas passeatas e Gritos dos Excluídos, o Reino vai se realizando até que se plenifique e renove a face do mundo. No Reino de Deus, não há lugar para injustiças, nem ouro ou prata. Lá, as casas são simples, com cores vivas, varandas e quintais. Toda Lua Cheia, há na rua uma grande ciranda, redonda e alegre como a própria lua.
Portas sempre abertas. Tem uma praça cheia de crianças, senhoras com lenço estampado na cabeça. No fim da tarde, todos se encontram para rezar, namorar, jogar conversa fora e celebrar o dia que se vai. Pela manhã, o sol anuncia com amarela alegria o recomeço da luz. Na antiga mesa de madeira, com toalha de chitão, um bule com café novinho; e numa velha forma, com gosto de comunhão, tem broa de fubá.
Para vários povos indígenas é a Terra Sem Males, Pachamama que acolhe suas filhas e filhos. Iluaiê, nos sonhos dos que vivem na pele, e por causa dela, a opressão. O Reino é o lugar das utopias, a despeito de toda desesperança...apenas um pouco além do presente.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Cuide bem dos seus ovos

Como a galinha de Clarice, trago dentro de mim um segredo, meu ovo sagrado. E ele, o ovo, só quer cumprir sua missão. Cada um traz um ovo diferente, com um propósito. Acho que o propósito do meu ovo, como de muitos outros, é trazer liberdade para as galinhas, torná-las conscientes do ovo que carregam e talvez até mesmo restituí-las o ovo que lhes foi roubado ou trocado.
Mas o que a Clarice não sabia é que não são os ovos que comandam as galinhas. O ovo está a serviço de alguém, de um projeto. Há séculos, os ovos de ouro do Mercado ditam a vida e os sonhos das galinhas. E elas não percebem que tiveram seus ovos trocados. Como o cuco, parasita, que coloca seus ovos nos ninhos de outros pássaros, a mão invisível do mercado põe seus ovos em nossos ninhos e quando menos esperamos, vemos chocar em nós, sonhos que não conhecíamos, perdemos nosso propósito. Em pouco tempo, os ovos intrusos já se tornam naturais, como se desde sempre estivessem ali. E ainda achamos estranhos os sonhos que nascem de ovos verdadeiros, dos ninhos ainda não violados.
A televisão é uma das melhores galinhas poedeiras que já existiram. Seus ovos se espalham como correnteza e ao contrário dos ovos originais, de todas as cores, tamanhos e texturas, os ovos dessa galinha são sempre iguais, não importa o tempo, o país, a idade e o sexo de quem os carrega. Mas todos com o mesmo propósito, o de fazer o Mercado prosperar. Afinal de contas, a mídia, assim como as ciências, as artes e a política, tornou-se a galinha dos ovos de ouro do Mercado. Todos aqueles desprovidos das condições materiais para chocar este tipo de ovo são deixados a margem, estão condenados a viver com seus próprios e míseros ovos. Não sabem que é aí que está sua força e esperança. Por isso todos correm e vivem para adquirirem ninhos cada vez melhores, para chocar cada vez mais os ovos do mercado. Mas tão cedo se inicia este parasitismo que poucos se lembram dos seus próprios ovos. A esperança é que quase sempre, em meio a tantos falsos ovos, há ainda latente, solitário, um ovo verdadeiro. Essa é a maior ameaça para o Mercado, ele não suporta qualquer verdade que não as suas próprias.
Esse é o propósito dos que vivem na esperança. Fazer proliferar os ovos da verdade, despertar os ovos adormecidos em ninhos de ouro. É preciso vasculhar nosso ninho, chocar nossos próprios sonhos. E ainda, muito cuidado, o Mercado está sempre a espreita.