Como a galinha de Clarice, trago dentro de mim um segredo, meu ovo sagrado. E ele, o ovo, só quer cumprir sua missão. Cada um traz um ovo diferente, com um propósito. Acho que o propósito do meu ovo, como de muitos outros, é trazer liberdade para as galinhas, torná-las conscientes do ovo que carregam e talvez até mesmo restituí-las o ovo que lhes foi roubado ou trocado.
Mas o que a Clarice não sabia é que não são os ovos que comandam as galinhas. O ovo está a serviço de alguém, de um projeto. Há séculos, os ovos de ouro do Mercado ditam a vida e os sonhos das galinhas. E elas não percebem que tiveram seus ovos trocados. Como o cuco, parasita, que coloca seus ovos nos ninhos de outros pássaros, a mão invisível do mercado põe seus ovos em nossos ninhos e quando menos esperamos, vemos chocar em nós, sonhos que não conhecíamos, perdemos nosso propósito. Em pouco tempo, os ovos intrusos já se tornam naturais, como se desde sempre estivessem ali. E ainda achamos estranhos os sonhos que nascem de ovos verdadeiros, dos ninhos ainda não violados.
A televisão é uma das melhores galinhas poedeiras que já existiram. Seus ovos se espalham como correnteza e ao contrário dos ovos originais, de todas as cores, tamanhos e texturas, os ovos dessa galinha são sempre iguais, não importa o tempo, o país, a idade e o sexo de quem os carrega. Mas todos com o mesmo propósito, o de fazer o Mercado prosperar. Afinal de contas, a mídia, assim como as ciências, as artes e a política, tornou-se a galinha dos ovos de ouro do Mercado. Todos aqueles desprovidos das condições materiais para chocar este tipo de ovo são deixados a margem, estão condenados a viver com seus próprios e míseros ovos. Não sabem que é aí que está sua força e esperança. Por isso todos correm e vivem para adquirirem ninhos cada vez melhores, para chocar cada vez mais os ovos do mercado. Mas tão cedo se inicia este parasitismo que poucos se lembram dos seus próprios ovos. A esperança é que quase sempre, em meio a tantos falsos ovos, há ainda latente, solitário, um ovo verdadeiro. Essa é a maior ameaça para o Mercado, ele não suporta qualquer verdade que não as suas próprias.
Esse é o propósito dos que vivem na esperança. Fazer proliferar os ovos da verdade, despertar os ovos adormecidos em ninhos de ouro. É preciso vasculhar nosso ninho, chocar nossos próprios sonhos. E ainda, muito cuidado, o Mercado está sempre a espreita.
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