domingo, 19 de agosto de 2012

"As Árvores me começam"


Era o menino e suas árvores. Pelas manhãs ia no terreiro visitar as duas goiabeiras, uma vermelha e outra branca. Ali no canto tinha um pé de abacate, a lima que nunca crescia, a mangueira do lado da escada escavada no barranco, a amora e uma parreira que anos mais tarde ainda sobreviveria ao concreto. Cada dia era tão longo, tudo era pra se encantar. Depois do café, tão forte que punha água pra ralear, aquele papel acinzentado que enrolava os pães virava seu caderno de desenhos: sóis sorridentes e vacas voadoras. A escola começava as 07:00. Quando subia a rua, no morro distante o sol despontava, cegando o menino por um instante. O mundo amarelecia, como a casa de Adélia. Se era julho, uma neblina densa vinda dos vales recobria o caminho por uns cinquenta passos ou mais, passos de menino. Lá longe, os ipês já anunciavam o frio, colorindo os campos secos, a espera das águas do verão.
            Na porta da escola todos os dias aquela dona de lenço azul na cabeça, a velha bandeja de alumínio com aquele quebra-queixo novinho, ainda quente. As crianças se apinhavam para comprar um pedacinho do doce e corriam para as salas com os dentes sujos de coco e melado. Em fila todos rezavam antes de começar as aulas. Nos cadernos com margens coloridas cuidadosamente riscadas na noite anterior, o menino escrevia, já um pouco de sua vida.
            O que ele queria mesmo era que aquelas aulas acabassem pra reencontrar suas árvores. Aquele terreiro não tinha mais que uns 20 m2, cada palmo preenchido de memórias e plantas. Entre árvores e as pequenas fileiras de milho, taiobas, couves e quiabos, o menino tinha um cantinho só dele onde fazia seus primeiros experimentos botânicos. Naquele pedacinho de terra, semeava tudo que encontrasse, e nos dias que se passavam alimentava o desejo de ver tudo brotar. Despertava a cada manhã na esperança dos primeiros cotilédones. Se não vinham, sabia que era preciso dormir outra vez, porque alguns milagres, esses só acontecem no escuro silêncio das noites.
            Nas chuvas de verão, pedaços de lona preta transformavam o espaço entre as goiabeiras e a amora em sua cabana, seu pequeno mundo. Ali podia imaginar histórias, comer o mexido preparado para o almoço, chorar aquilo que ainda não compreendia. A chuva apertava, a mãe chamava, mas o menino ficava ali, quieto, ouvindo os pingos e seus segredos. Uma pequena corredeira se formava entre seus pés, insetozinhos se afogavam e as minhocas pulavam sobre a terra.
            Por entre as árvores, olhava para o céu. Nas nuvens, procurava Nossa Senhora, mas ela nunca aparecia. Talvez não fosse bom o bastante para vê-la como Lúcia e seus dois irmãos, talvez precisasse rezar mais. A noite, subia no terreiro, conferia se alguém havia brotado, e antes de dormir olhava demoradamente as estrelas. Pensava como estariam aquelas pessoas nesse mundo tão grande que só via pela TV, e num mergulho pra dentro, se banhava em mares e rios que muitos anos mais tarde tocaria. O mundo era grande, dava medo. Mas era março e dava goiaba.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

De Mel e Cinzas

                A vida se alimenta das pequenas mortes. Viver a vida sem suas mortes é impedir ressurreições, cercear a própria vida. Organizando meu quarto por esses dias, reencontrei o livro (que ainda não li) de Levi-Strauss, Do Mel às Cinzas (1966). No caso, mel e cinzas remetem a relação entre a natureza e o mundo sobrenatural, típica das culturas indígenas sul-americanas. Esse título poético, um do mais lindos que conheço, também nos recorda do mel e das cinzas que formam nossas vidas.
                Mel. Resultado de trabalho lento e silencioso, de flores e abelhas e porque não, do trabalho humano. Por mais que se tente, impossível enquadrar as multidões de abelhas na escala e tempo industriais. É preciso esperar o tempo das floradas, o tempo bom para as colheitas. Não há máquinas coletoras, ao modo da ordenha mecânica. É preciso aprender com as abelhas, visitar as flores que há pelo mundo, coletando em cada uma seus pequenos grãos de pólen, seu néctar, retornar para casa e aí fazer o milagre do mel. Mas impossível produzir sozinh@s o mel bom e gostoso, o mistério da vida se tece em mutirão.
                Cinzas. Produto do fogo que queima e purifica. Pode ser a cinza para a fazer o sabão dequada, as cinzas na roça, fonte de vida para as colheitas que virão. São as cinzas do incenso que só transformado pelo fogo, liberta totalmente o aroma que mescla a terra e o céu.  Podem ainda ser as cinzas das mortes. Os restos das matas e cerrados, vítimas da sanha do capital ou as cinzas da pólvora que extermina os jovens (negros e pobres)do país. Terminando o Carnaval, a celebração do mel, é preciso olhar para as cinzas da vida.
                Do mel às cinzas, de mel e cinzas.  É preciso reconhecer mortes presentes no mel e a vida que brota das cinzas. Reduzida ao essencial nas cinzas e transbordando no mel, a vida nos convida caminhar, na certeza das ressurreições, até o dia em que tod@s compartilharemos o pão e o trabalho nas Terras do Bem-Virá.