A vida se alimenta das pequenas mortes. Viver a vida sem suas mortes é impedir ressurreições, cercear a própria vida. Organizando meu quarto por esses dias, reencontrei o livro (que ainda não li) de Levi-Strauss, Do Mel às Cinzas (1966). No caso, mel e cinzas remetem a relação entre a natureza e o mundo sobrenatural, típica das culturas indígenas sul-americanas. Esse título poético, um do mais lindos que conheço, também nos recorda do mel e das cinzas que formam nossas vidas.
Mel. Resultado de trabalho lento e silencioso, de flores e abelhas e porque não, do trabalho humano. Por mais que se tente, impossível enquadrar as multidões de abelhas na escala e tempo industriais. É preciso esperar o tempo das floradas, o tempo bom para as colheitas. Não há máquinas coletoras, ao modo da ordenha mecânica. É preciso aprender com as abelhas, visitar as flores que há pelo mundo, coletando em cada uma seus pequenos grãos de pólen, seu néctar, retornar para casa e aí fazer o milagre do mel. Mas impossível produzir sozinh@s o mel bom e gostoso, o mistério da vida se tece em mutirão.
Cinzas. Produto do fogo que queima e purifica. Pode ser a cinza para a fazer o sabão dequada, as cinzas na roça, fonte de vida para as colheitas que virão. São as cinzas do incenso que só transformado pelo fogo, liberta totalmente o aroma que mescla a terra e o céu. Podem ainda ser as cinzas das mortes. Os restos das matas e cerrados, vítimas da sanha do capital ou as cinzas da pólvora que extermina os jovens (negros e pobres)do país. Terminando o Carnaval, a celebração do mel, é preciso olhar para as cinzas da vida.
Do mel às cinzas, de mel e cinzas. É preciso reconhecer mortes presentes no mel e a vida que brota das cinzas. Reduzida ao essencial nas cinzas e transbordando no mel, a vida nos convida caminhar, na certeza das ressurreições, até o dia em que tod@s compartilharemos o pão e o trabalho nas Terras do Bem-Virá.
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