segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Na roça #1

Já tinha seus seis anos. O menino com os pés no chão e alma leve. Andava naquele fim de tarde pelo quintal, entre pitangas e galinhas. De repente, perto da bica d'água surgiu, imóvel, a seriema. Um filhote. Trocaram olhares. A mãe deixou que ele a criasse. Semanas, nuvens e chuvas se passaram. O menino e a ave já se conheciam bem. Em uma tarde fria de maio ele quis abrir o cercadinho e sua amiga se foi, sumiu no cerrado. Toda manhã ela piava de longe e ele sorria, satisfeito. O menino já aprendera o amor.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

"Olhai os carirus no canto"

Pelas ruas elas resistem. Nascem sem pedir licença, assim, num ato subversivo, radical. Ontem mesmo, no meio-fio, vi uma enorme, já florida, uma transagem. Mais um pouco e já encontro uma touceira de cariru-de-porco. Plantas da roça que marcam a memória da cidade e do concreto. Nem o asfalto nem a crescente poluição são capazes de eliminá-las. São como nossas lembranças, basta uma bocadinho de terra para que germinem e frutifiquem. Nos muros e cercas vicejam os melões-de-são-caetano, orelhas-de-cachorro e as trombetas. Nos terreiros molhados pela chuvas nascem santa-marias, picões, beldroegas, trapoerabas e fumos-bravos. Aqueles mais privilegiados dão a sorte de encontrar em seu quintal um pezinho de quitoco  - ô tempero bão! É a vida que insiste, que só é possível na desordem, fora da lei (do concreto). Outro dia, Dona Mariazinha, do Aglomerado da Serra, ao olhar as mamonas que tomam conta de lotes e becos, lembrava com carinho e saudade da vida na roça, do azeite usado para curar os "imbigos". Esse matagal que prolifera nessas brechas urbanas guarda também uma riqueza de vidas, memórias e saberes, todos a espreita, sementes de um novo dia que virá.

sábado, 12 de outubro de 2013

A Mãe Negra de Menin@s Colorid@s


A Mãe Negra de Menin@s Colorid@s,


Há cinco séculos nascia sob ferro, fogo e espada, o continente da esperança. Aqui embaixo da linha do equador, o sangue dos oprimidos nutriu a opulência do "mundo desenvolvido". Irmanados na dor, negros e indígenas tiveram sua vida e história ceifadas em nome do evangelho e da salvação. Da lama da opressão, emerge uma Mãe Negra, Crioula, Mestiça, Cabocla, Aparecida. Vem dizer aos meninos e meninas dessa terra que a ciranda já vai começar. Esses meninos e meninas, sobreviventes da fome, do abandono e das balas da PM, coloridos como nossas matas que ainda vivem, querem também brincar de utopia. De suas lágrimas caída em nosso chão, brotaram silenciosamente um pau d'arco florido, anunciando o Reino da Vida.

domingo, 9 de junho de 2013

O Deus da Periferia

Do meio do buriti ardente - não pela força do Espírito, 
mas pelo fogo que lambia toda a mata -
o Deus desconhecido apareceu para mim e assuntava:

Se achegue mais meu filho
Eu sou o Deus da Vida
Não o deus que dá saúde, prosperidade financeira e emprego
Não posso ser comprado e vendido
Não faço trocas, mas alianças
Não sou o deus do ouro e poder do Vaticano,
nem dos discursos dos poderosos

Eu sou o Deus dos Excluídos
o Deus de Carajás e Corumbiara
o Deus de Carandiru, Candelária e Barraginha
Eu sou o Deus de Josimo, Romero, Margarida e dos Sem-Terra
Sou o Deus de Chico Mendes e Helder Câmara
Não estou nos templos suntuosos
mas nos estreitos caminhos da periferia
nas bocas de fumo e casas de prostituição

Eu ouvi o clamor do meu povo -
E também os tiros de 38 nas mãos de crianças-
e vim libertá-los da exploração
Por isso te envio
Liberta meu povo, constrói o meu Reino
que é teu e de todos que acreditam e vivem na  Força do Amor.