Para todos aquelas e aquelas que se deixam embriagar pela boniteza da vida, a morte nunca é a última palavra. Para grande parte das matrizes religiosas atuais, nossa vida presente é caminho para uma realidade maior, mais plena e eterna. A imanência e concretude do viver apontam para o grande Mistério. Como católico, que viveu a efervescência e paixão das comunidades eclesiais de base, essa grande utopia que buscamos se chama Reino de Deus.
Mas o que é esse tal Reino de Deus? Ele não tem nada que ver com aquele da Igreja Universal, ou com o ouro e poder do Vaticano. Não existem os escolhidos para entrar e não é possível comprar nossa entrada como se reservam mesas em restaurantes refinados. O Reino de Deus é o Reinado do Povo. É a concretização dos sonhos de homens e mulheres que lutam por uma nova ordem das coisas e que se apaixonam todos os dias pela vida que resiste. Esse Reino não é a intervenção autoritária de Deus na nossa história, mas é manifesto nos seus sinais na vida do povo. Não é uma realidade futura que serviria para simplesmente amenizar nossos sofrimentos e nos tornar resignados. É atual e concreto no viver de comunidades que se encontram para lutar por justiça e fazer acontecer no agora os sonhos do amanhã.
Nas rezas, nas novenas, no FSM, nas passeatas e Gritos dos Excluídos, o Reino vai se realizando até que se plenifique e renove a face do mundo. No Reino de Deus, não há lugar para injustiças, nem ouro ou prata. Lá, as casas são simples, com cores vivas, varandas e quintais. Toda Lua Cheia, há na rua uma grande ciranda, redonda e alegre como a própria lua.
Portas sempre abertas. Tem uma praça cheia de crianças, senhoras com lenço estampado na cabeça. No fim da tarde, todos se encontram para rezar, namorar, jogar conversa fora e celebrar o dia que se vai. Pela manhã, o sol anuncia com amarela alegria o recomeço da luz. Na antiga mesa de madeira, com toalha de chitão, um bule com café novinho; e numa velha forma, com gosto de comunhão, tem broa de fubá.
Para vários povos indígenas é a Terra Sem Males, Pachamama que acolhe suas filhas e filhos. Iluaiê, nos sonhos dos que vivem na pele, e por causa dela, a opressão. O Reino é o lugar das utopias, a despeito de toda desesperança...apenas um pouco além do presente.