A “era da informação” em que vivemos, talvez seja o período da nossa história em que mais vozes são deliberadamente caladas e tantas vidas são invizibilizadas. Tornar invisível o indesejado, silenciar os que questionam, matar (fisicamente se preciso) qualquer alternativa à ditadura do mercado e do consumo, eis as tarefas diárias dos meios de comunicação a serviço do capital. O que há algum tempo era resultado de um processo histórico, a configuração do mundo com base na globalização cultural e econômica de viés capitalista, tem se tornado quase como um novo gênesis, um dogma ainda mais forte do que aqueles do Vaticano e que têm arrastado multidões em busca do consumo que - prometem os deuses do mercado - nos salvarão da vergonhosa derrota na luta pela sobrevivência. A pobreza, o desemprego e a fome não são mais uma falha do sistema em distribuir a riqueza socialmente construída, senão resultados da incompetência dos indivíduos em se capacitarem para a livre concorrência no mercado. Afinal, todos nascemos iguais, não é mesmo? São silenciados, ridicularizados, todos aqueles que questionam os dogmas do mercado, se preciso, queimados em praça pública, nas fogueiras da santa inquisição do capital.
Da mesma maneira, são condenados a inexistência todos os povos e comunidades que não comungam e nem contribuem para o desenvolvimento do país e do mundo por meio do crescimento econômico. Os defensores de Belo Monte que o digam. Para que se importar com um bando de povos indígenas e ribeirinhos com tanta terra “ociosa”, cheio de mato e bicho? São eles apenas entraves ao inexorável e dogmático crescimento econômico. Na modernidade não pode haver espaço para nada que nos remeta ao passado, a linha do tempo só tem um sentido. Simetricamente, também invizibilizamos o futuro, já que nossas escolhas - se queremos respeitar religiosamente o dogma do crescimento e acúmulo como sinônimos de desenvolvimento – não podem estar atreladas às gerações que estão por vir. Olvidamos o passado e negamos o futuro, a realidade é um “eterno presente”.
Todavia, as vidas e vozes alternativas estão aí e emergem em meio ao lamaçal capitalista como sinais de esperança. Os caminhos para outro mundo possível e em construção, não virão do IPCC, nem da Rio +20. Mais importantes e perigosos do que os “indignados” de Wall Street, são os invisibilizados e silenciados das periferias do mundo. Como nos lembra a bela canção de Milton Nascimento:
“A novidade é que o Brasil não é só litoral
É muito mais, é muito mais que qualquer zona sul
Tem gente boa espalhada por esse Brasil
Que vai fazer desse lugar um bom país
Uma notícia está chegando lá do interior
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil